quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Paranapiacaba: a pitoresca vila inglesa encravada em pleno trecho paulista da Serra do Mar

Passarela da antiga estação ferroviária de Paranapiacaba no inverno e sob neblina
Passarela da antiga estação ferroviária de Paranapiacaba  - Por Tito Garcez em 2010
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Sabe aqueles cenários de filmes de terror e suspense, onde a névoa deixa a cidade com todo um clima de mistério?! Pois bem, existe no Brasil um lugar pitoresco que se encaixa direitinho nesse perfil. E o melhor: é super fácil chegar lá. Conheça Paranapiacaba, que, apesar do nome indígena, reserva características arquitetônicas de um lugar bem distante...

Antigo Mercado de Paranapiacaba no inverno
Antigo Mercado de Paranapiacaba (2010)

Bom, alguns podem achar o nome do lugar bem curioso, e ele de fato o é. Paranapiacaba significa, em tupi-guarani, “de onde se vê o mar”, e isso faz todo o sentido, afinal a vila tem altitude média que passa dos 800 metros. Quando o tempo está muito aberto, é possível avistar a costa e algumas cidades que nela estão. Só que não é tão fácil ter essa sorte, pois a localização da vila não ajuda. Por estar no limite entre o Planalto Paulista e a Serra do Mar, a névoa toma completamente o lugar frequentemente. Abaixo falo melhor sobre isso.

Vista da parte baixa da vila de Paranapiacaba com tempo aberto
Vista da parte baixa da vila de Paranapiacaba (2012)


Castelinho de Paranapiacaba
Castelinho (2012)

A vila de Paranapiacaba surgiu no século XIX para servir como base para a construção da estrada de ferro Santos-Jundiaí, que tinha sido planejada para escoar parte do café produzido no interior paulista. É só em 1850 que a ideia de construir a ferrovia começa a sair do papel graças ao Barão de Mauá, que encontra nos ingleses a parceria ideal para colocar o projeto em prática. E é por isso que as construções da vila levam características da arquitetura inglesa. Só em 1856 a recém-criada empresa São Paulo Railway recebe a concessão para a construção e exploração da ferrovia por 90 anos, tendo as obras iniciadas em 1860 e finalizadas em 1867.


Placa de ferro da avenida Rymkiewicz, em Paranapiacaba
Placa de ferro da avenida Rymkiewicz (2010)


Vegetação típica de lugares úmidos que se desenvolve em Paranapiacaba
Vegetação típica de locais úmidos que se desenvolve em Paranapiacaba (2010)


A vila está localizada mais especificamente no município de Santo André, ou seja, fica no ABC Paulista, na região metropolitana de São Paulo. Isso mesmo! Não parece, mas fica muito perto da moradia de milhões de pessoas. É difícil imaginar que um lugar tranquilo e diferente como esse esteja tão próximo da maior metrópole brasileira, mas isso de certa forma é bom, afinal faz com que o acesso seja facilitado e mais pessoas tenham a oportunidade de conhecê-lo.

Estação de trens de Rio Grande da Serra, em Santo André
Estação do município de Rio Grande da Serra (2012)


E por falar em acesso, saindo da cidade de São Paulo, não há erro para chegar lá: os melhores meios de locomoção a serem utilizados são metrô, trem e, por fim, ônibus. Do metrô, o visitante necessita ir até a Linha 10 (Turquesa) que liga a Estação da Luz à de Rio Grande da Serra (estação final), onde é necessário descer para finalmente embarcar no ônibus da linha 424, para a Vila de Paranapicaba, na parada de ônibus chamada de “ponto final”. Após sair da estação e passar pelos trilhos, o ponto fica a alguns metros à direita, após uma curva.

Vista para Cubatão a partir do mirante na serra do Mar, em Paranapiacaba
Vista do mirante na serra do Mar (2012)

Ao descer do ônibus na rodovia SP-122 (Ribeirão Pires-Paranapiacaba), você estará praticamente na parte alta da vila. E o primeiro atrativo que pode ser visitado é um simples mirante de madeira com uma bela vista para parte da serra do Mar, isso se houver visibilidade. E vale a pena abrir um parêntese sobre isso: se chegar à vila e o lugar estiver tomado por uma densa neblina, não se assuste e não espere que isso passe rapidamente, pois as nuvens podem pairar pelo lugar por minutos, horas ou por todo um dia. Isso mesmo! Você poderá estar caminhando entre as nuvens! E é isso que ajuda a deixar o lugar com um clima de suspense, de mistério.

Fachada frontal da igreja Nosso Senhor Bom Jesus de Paranapiacaba
Fachada frontal da igreja Nosso Senhor Bom Jesus de Paranapiacaba (2010)


Interior da igreja Nosso Senhor  Bom Jesus de Paranapiacaba
Interior da igreja Nosso Senhor  Bom Jesus de Paranapiacaba (2012)


Depois, já na entrada da vila, a igreja de Nosso Senhor Bom Jesus de Paranapiacaba, construída no final do século XIX, chama a atenção principalmente por conta de seu cemitério anexo. Já se imaginou visitando um lugar assim sob densa neblina?! Pois bem, lá é perfeitamente possível, e só os mais corajosos realizam esse feito. Caso o tempo esteja aberto, da frente da igreja é possível ter a primeira visão da parte baixa da vila, do relevo montanhoso do entorno e da vasta área de mata atlântica que contorna a vila.


Cemitério de Bom Jesus, em Paranapiacaba
Entrada do cemitério Bom Jesus (2012)


Cemitério Bom Jesus de Paranapiacaba
Interior do cemitério Bom Jesus de Paranapiacaba (2010)


Voltando a caminhar em direção à parte baixa da vila, é possível ver uma arquitetura muito diferente do que será visto logo mais. Na parte alta, o colorido e a proximidade das casas chama a atenção, diferentemente da padronização existente na maior parte das construções de madeira existentes na parte baixa. Mas, antes de chegar lá, é possível vencer uma interessante barreira: a estação de trem. E, para isso, é necessário atravessar uma longa passarela. Quando a névoa toma o lugar, você mal consegue ver o chão ou outra coisa que não seja a passarela. É como se estivesse de fato no céu.


Passarela da antiga estação ferroviária de Paranapiacaba sob neblina
Passarela da antiga estação ferroviária (2010)


Passarela e antiga estação ferroviária de Paranapiacaba com tempo aberto
Passarela e antiga estação ferroviária (2012)


Antes do final da passarela, é possível dobrar à esquerda e seguir em direção à antiga estação, que tem trechos abertos à visitação. A entrada é paga, e o valor vai depender do que você fará por lá. Se quiser apenas visitar o museu Ferroviário Funicular, o valor não é caro. Há também a opção de fazer um rápido passeio de Maria Fumaça pelo entorno da estação, e o preço é um pouco maior e o passeio não me parece tão interessante a não ser que se esteja com crianças. Escolhendo a opção de visitar o museu, é possível ver inúmeras peças, ferramentas e visitar algumas instalações que foram mantidas quase que totalmente como eram.


Vagão da Maria Fumaça na antiga estação ferroviária de Paranapiacaba
Vagão que é puxado pela locomotiva Maria Fumaça na antiga estação ferroviária (2012)


Instalação do Museu Ferroviário de Paranapiacaba
Museu Ferroviário de Paranapiacaba (2012)


Além da arquitetura típica em tijolinhos, madeira e ferro, na estação existe algo que é um dos símbolos da vila: o relógio, réplica do Big Ben. Tem coisa mais inglesa que isso?! Pena que ele esteja numa área não aberta à visitação, então temos que nos contentar em vê-lo ao longe.


Relógio réplica do Big Ben, em Paranapiacaba
Relógio réplica do Big Ben, na antiga estação ferroviária (2010)


Galpão na antiga estação ferroviária de Paranapiacaba
Instalação na antiga estação ferroviária (2010)


Após sair da antiga estação, finalmente chegamos na região residencial da parte baixa da vila, e ali já começamos a ver as famosas construções típicas de Paranapiacaba, grande parte construídas em madeira, com uma cor marrom-avermelhada que caracteriza o lugar. É possível visitar o interior de algumas dessas construções quando entramos em alguns restaurantes ou lojas. Além das casas de madeira, existem algumas de alvenaria. A depender do cargo dos moradores da vila, na época eles viviam em casas mais simples, menores, ou nas maiores, com amplo jardim ou em alguma área mais alta, com melhor vista.


Rua de Paranapiacaba à noite
Uma das ruas de Paranapiacaba à noite (2012)


Placa de ferro sinalizando a saída da vila de Paranapiacaba
Placa de ferro sinalizando a saída da parte baixa da vila de Paranapiacaba (2010)


Em se tratando dos principais atrativos da vila, vale a pena conhecer o chamado Castelinho, que é uma casa construída no alto de um morro e que tem vista para toda a vila. Era lá que vivia o engenheiro-chefe. Outros locais que merecem uma visita são o antigo Mercado, o Clube Lira Serrano e o curioso Pau da Missa. Esse último é o tronco de um antigo eucalipto que era usado inicialmente para a colocação de avisos referentes a falecimentos e a missas de sétimo dia, mas que posteriormente passou a ser utilizado para que pregassem quaisquer informações de interesse da comunidade. A sua localização, entre as partes baixa e alta da vila, fazia que com que fosse um estratégico ponto de passagem de quem por lá morava.


Coreto e Clube União Lyra Serrano, em Paranapiacaba
Coreto e Clube União Lyra Serrano (2010)


Coreto de Paranapiacaba sob neblina
Coreto (2010)


Quanto ao entorno natural, a região também chama a atenção dos que gostam de trilhas. No parque Natural Municipal Nascentes de Paranapiacaba, é possível, tendo o acompanhamento de monitores, fazer seis  trilhas, com diferentes graus de dificuldade. Muitos inclusive usam trilhas da região para descer a serra do Mar em direção ao litoral, numa aventura que pode durar muitas horas.


Entrada do parque municipal Nascentes de Paranapiacaba
Entrada do parque municipal Nascentes de Paranapiacaba  (2010)


Cascata do parque municipal Nascentes de Paranapiacaba
Parque municipal Nascentes de Paranapiacaba (2010)


Se puder permanecer na vila até à noite e gostar de um clima mais sombrio, recheado de mistério, passear pelas ruas da vila é um prato cheio, assim como transitar pela passarela, sobretudo quando a névoa deixar a visibilidade muito baixa. Mas veja só, não é apenas desse clima de mistério que vive o lugar. Em julho, a vila abriga um dos principais festivais de inverno do estado de São Paulo. O festival de inverno de Paranapiacaba tem se caracterizado, ano a ano, como um dos principais programas culturais da época mais fria do ano. É possível aliar frio a apresentações artísticas de excelente qualidade que acontecem no mercado, no clube ou até mesmo ao ar livre. Vale a pena conferir, mas agora só em 2014! ;)


Vagões abandonados na estação ferroviária de Paranapiacaba
Vagões abandonados na  antiga estação ferroviária (2010)


Casa e caixa de correios em Paranapiacaba
Casa e caixinha de cartas (2010)


Se quiser ver outras publicações sobre atrativos do estado de São Paulo, veja o que foi mostrado sobre o Museu Paulista (ou do Ipiranga) e também sobre o Mirante Niemeyer, em São Vicente. 

2 comentários:

  1. Ronaldo Soares22/11/2014 19:55

    Tito Garcez,
    que maneira de ser referir ao nevoeiro de Paranapiacaba!
    "Cenário de filmes de terror e suspense, onde a névoa deixa a cidade com todo um clima de mistério". "Se chegar à vila e o lugar estiver tomado por uma densa neblina, não se assuste e não espere que isso passe rapidamente"...
    A vila inglesa é de "um clima mais sombrio, recheado de mistério"...

    Quanta aversão ao nevoeiro, que é justamente um dos atrativos da Vila Inglesa, que lhe dá um charme a mais! Que dá ainda mais caráter "inglês", de London fog', à Vila! Por que tanto susto e tanta fobia à Vila Inglesa, a um lugar único assim no País?

    Por isso, como morador de Santo André e que ama o legado, a paisagem e a história de Paranapiacaba, faço aqui um protesto: não tenha medo nenhum do nevoeiro inglês de Paranapiacaba. A vila mais inglesa do Brasil é linda assim, como ela é, e é única! 'Keep calm...'

    Ronaldo Soares
    Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
    Universidade de São Paulo

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  2. Prezado Ronaldo,

    Não houve qualquer aversão ou fobia à vila ou ao nevoeiro, muito pelo contrário. Tanto amei conhecer Paranapiacaba que já fiz 2 visitas. E quando lá estive, fui em busca exatamente da névoa, do frio, da bela arquitetura, da tranquilidade e desse tal clima de mistério, de suspense. Enfim, você teve uma visão totalmente equivocada sobre a minha impressão e experiência vivida no lugar.

    Saudações,
    Tito

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